ARQUITETANDO POR AÍ

ARQUITETANDO POR AÍ
O assunto aqui é transformar rotinas engessadas, visando a melhoria da qualidade de vida dos envolvidos. Mas, como assim? Alinhando conhecimentos arquitetônicos a técnicas de organização, espaços residenciais ou comerciais são reestruturados com custo bem inferior ao imaginado. Independente do tamanho da sua necessidade, conheça um pouco dessa história e encontre respostas. Aguardo você...
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02/08/2020

E SE NÃO PASSAR?


Está passando!




Hoje, acordei indisposta. Reflexos da noite anterior. Problemas de estômago. Sempre ele. Já abri os olhos com a preocupação: que fazer com o post no blog? Foi quando lembrei da amiga Isabel Villas e a sua atenção em me informar sobre todas as publicações da escritora Martha Medeiros que passem pela sua frente. Ela compartilhou. Eu amei e guardei!    



E SE NÃO PASSAR?


Estamos há quase quatro meses mergulhados numa pandemia que mudou nossos hábitos, nos impôs restrições, nos distanciou fisicamente e nos colocou frente a frente com nossas fragilidades. Vai ficar por isso mesmo? Quando iniciou, parecia apenas uma onda gigante e repentina. Se soubéssemos nos manter à tona, boiando sobre ela, obedientes e respeitosos diante do tamanho, nada de muito ruim iria nos acontecer e logo reencontraríamos a calmaria.
É o que vem acontecendo nos países europeus, que estão retomando as atividades cotidianas, dando um passo de cada vez. O Brasil, caótico por natureza, vai levar mais tempo, nenhuma novidade. Três, seis, dez meses? Quando teremos nossa vida de volta? Talvez nunca, não como era antes. É provável que tenhamos que assimilar que a nossa atual precariedade determinará novos modelos de conduta daqui para frente.
Lavar as mãos, usar máscara e evitar aglomerações: já estamos nos acostumando. Poderíamos nos acostumar agora com o desprestigio da ostentação e do consumismo delirante. Continuaremos comprando comida, roupas e remédios, precisaremos de um bom teto como sempre precisamos, mas nossos luxos talvez mudem - tomara que mudem. Hora de privilegiar as questões humanas, se soubermos aproveitar a oportunidade.
Não chego a falar de um renascimento espiritual, que soaria pomposo, mas acredito, sim, que a tendência é reavaliarmos nosso estilo de vida. As grandes metrópoles se tornaram zonas de contágio, e um êxodo urbano não seria má ideia: sair em busca de desintoxicação, mais atividades ao ar livre, cidades menores, menos concentração populacional. 
A arte também se beneficiará desta pandemia. Não só por sua valorização evidente (o que teria sido de nós sem livros, música e filmes nesse longo confinamento?), mas também pelo surgimento de talentos até então desconhecidos: as pessoas foram obrigadas a descobrir em si algum dom - artes manuais, gastronomia, desenho digital, colagens, fotografia, vá saber quantos outros. A expressão artística poderá ser nossa grande contribuição à humanidade: não voltaremos a ser apenas consumidores de cultura, mas fornecedores também.
Não é se apegando a símbolos de status que prestaremos homenagem à nossa sobrevivência, e sim expandindo nossa criatividade, encontrando os amigos, bebendo e comendo com eles, namorando, celebrando as sensações, não as aquisições. Utilidades práticas seguirão bem-vindas, mas as utilidades emocionais é que definirão nosso bem-estar: meditação para dormir melhor, leitura para mais autoconhecimento, empatia para reduzir desigualdades. Já que esta crise é inevitável, que a gente ao menos transforme nosso espanto em sabedoria.


MARTHA MEDEIROS





Fonte imagem: GOOGLE

18/02/2018

AMOR DEMAIS



Sempre ele...




Ás vésperas de noticias bombásticas, confesso que ontem, fui dormir pensando no que mais poderia contribuir para a formação das minhas filhas. Organização? Já sabem do que precisam. Amor próprio? Cresceram ouvindo falar no primeiro e, em algumas ocasiões, único amor das nossas vidas. Gratidão? Ainda que novas, já são pós-graduadas nesse quesito.
Foi quando lembrei duma crônica de Martha Medeiros que faria muito sentido para o nosso momento. Ao acordar, já com a missão em mente, parti em busca da resposta que tanto precisava. E achei! Ambas: a crônica e a resposta. Ainda sem autorização para compartilhar a mencionada notícia, deixo aqui, para elas e vocês, esse texto cheio de amor...   
  



Avec Elegance


Hoje a maioria das pessoas que têm acesso à informação sabe que é peruíce usar uma blusa de paetês às duas da tarde e que é deselegante comparecer a um casamento sem gravata. Constanza Pascolato, Gloria Kalil, Celia Ribeiro, Fernando Barros e Claudia Matarazzo são alguns dos jornalistas especializados em ajudar os outros a não cometerem gafes na hora de se vestir ou de se portar à mesa. Mas existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento.
É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza. É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto. É uma elegância desobrigada.
É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que crticam. Nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.
É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir à empregadas domésticas, garçons ou frentistas. Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros. É possível detectá-la em pessoas pontuais.
Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem dá um presente sem data de aniversário por perto, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.
Oferecer flores é sempre elegante. É elegante não ficar espaçoso demais. É elegante não mudar seu destino apenas para se adaptar ao de outro. É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais. É elegante retribuir carinho e solidariedade.
Sobrenome, joias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto. Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante. Pode-se tentar capturar essa delicadeza natural através da observação, mas tentar imitá-la é improdutivo. A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social: é só pedir licencinha para o nosso lado brucutu, aquele que acha que "com amigo não tem que ter estas frecuras". Se os amigos não merecem uma certa cordialidade, os inimigos é que não irão um dia desfrutá-la. Educação enferruja por falta de uso. E, detalhe: não é frescura.

Martha Medeiros 





Fonte imagem: INTERNET

14/08/2016

UM DIA TODINHO DELES






Um pai exemplar, um juiz no exercício da profissão, um ex-colega de faculdade e atual amigo querido. Essas três figuras masculinas estiveram na minha semana e nas minhas orações. O pai, por ter sido a minha melhor escolha de vida, entre muitas coisas, por desconfiar que seria o melhor guia que meus futuros filhos poderiam ter. O juiz, que na sua incansável busca por justiça, equivocadamente, tem transformado os nossos dias em verdadeiros testes de superação. E o amigo distante, mas em total sintonia, que se fez presente na nossa semana através do texto abaixo compartilhado num grupo de whatsApp. Três homens íntegros, três famílias e uma oração pra lá de poderosa. Isso deve ter algum significado! Sigamos com coragem. Desde que me entendo por gente, o bem sempre vence.




  Uma oração para os novos tempos


Que honremos o fato de ter nascido, e que saibamos desde cedo que não bastar rezar um Pai Nosso para quitar as falhas que cometemos diariamente. Essa é uma forma preguiçosa de ser bom. O sagrado está na nossa essência, e se manifesta em nossos atos de boa fé e generosidade, frutos de uma percepção profunda do universo, e não da ocasião. Se não estamos focados no bem, nossa aclamada religiosidade perde o sentido.
Que se perceba que quando estamos dançando, festejando, namorando, brindando, abraçando, sorrindo e fazendo graça, estamos homenageando a vida, e não a maculando. Que sejam muitos esses momentos de comemoração e alegria compartilhados, pois atraem a melhor das energias. Sentir-se alegre não deveria causar desconfiança, o espiríto leve só enriquece o ser humano, pois é condição primordial para fazer feliz a quem nos rodeia.
Que estejamos abertos, se não escancaradamente, ao menos de forma a possibilitar uma entrada de luz pelas frestas - que nunca estejam lacrados para receber o que a vida traz. Novidade não é sinônimo de invasão, deturpação ou violência. Acreditemos que o novo é elemento de reflexão: merece ser avaliado sem preconceito ou censura prévia.
Que tenhamos com a morte uma relação amistosa, já que ela não é apenas portadora de más notícias. Ela também ensina que não vale a pena se desgastar com pequenas coisas, pois no período de mais alguns anos estaremos todos com o destino sacramentado, invariavelmente. Perder tempo com picuinhas é só isso, perder tempo.
Que valorizemos nossos amigos mais íntimos, as verdadeiras relações pra sempre.
Que sejamos bem-humorados, porque o humor revela consciência da nossa insignificância - os que não sabem brincar, se consideram superiores, porém não conquistam o respeito alheio que tanto almejam. Ria de si mesmo, e engrandeça-se.
Que o mar esteja sempre azul, que o céu seja farto de estrelas, que o vinho nunca seja proibido, que o amor seja respeitado em todas as suas formas, que nossos sentimentos não sejam em vão, que saibamos apreciar o belo, que percebamos o ridículo das ideias estanques e inflexíveis, que leiamos muitos livros, que escutemos muita música, que amemos de corpo e alma, que sejamos mais práticos do que teóricos, mais fáceis do que difíceis, mais saudáveis que neurastênicos e que não tenhamos tanto medo da palavra felicidade, que degigna apenas o conforto de estar onde se está, de ser o que se é e de não ter medo, já que o medo infecciona a mente.
Que nosso Deus, seja qual for, não nos condene, não nos exija penitências, seja um amigo para todas as horas, sem subtrair nossa inteligência, prazer e entrega às emoções que nos fazem sentir plenos.
A vida é um presente, e desfrutá-la com leveza, inteligência e tolerância é a melhor forma de agradecer - aliás, a única.

Martha Medeiros




Nesse dia especial, desejo para esses três grandes homens - estranhos uns para os outros, mas conectados pela mesma energia - uma vida, além de pautada na ética e na justiça, de muita luz! Feliz dia à todos... ❤ ❤    





Fonte imagem: INTERNET

24/01/2016

PAUSA PARA REFLEXÃO






Sempre de braços dados com a honestidade, preciso confessar: por conta do trabalho da pmg, foi impossível pensar no post de hoje ao longo da semana. Ainda sem ideias, soubemos que uma família de amigos pra lá de especial, residentes em SP, estava se despedindo do verão de Salvador. Passado um ano sem vê-los, no sábado, precisávamos nos encontrar. Mas e o post de hoje? Fomos mesmo assim! E foi lá, numa deliciosa conversa com a parte feminina da citada família, que descobrimos usar meios parecidos em busca de dias felizes. Ainda a milhas e milhas do meu notebook, lembrei de mais um sensacional texto de Martha Medeiros. Então, durante essa pausa para reflexão, prometi à Elvia Costa o compartilhamento abaixo... 




Simples Assim



Recebi um e-mail da prefeitura avisando que de agora até abril de 2016 haverá a construção de uma superciclovia cortando toda a área central da cidade. Eles dizem que durante a primeira fase dos trabalhos serei avisada sobre quais ruas devo evitar nas horas de pico e também serei comunicada quando houver algum desvio. Disseram também que o transporte público não será afetado, mas poderá eventualmente acontcer algum atraso nos horários previstos de chegada dos ônibus nas estações. Por fim, divulgaram um site onde encontro uma animação em 3D reproduzindo todo o trajato da ciclovia, incluindo os cruzamentos e a sinalização, assim como as datas de início e conclusão de cada trecho e horário de atendimento por telefone para esclarecimento de dúvidas.
O e-mail é da prefeitura de Londres. Cerca de dois anos atrás, passei um mês estudando lá e comprei um Oyster Card, que é um cartão para transitar por transporte público por toda a cidade. Fiquei cadastrada no mailing deles e desde então recebo periodicamente as informações sobre o trânsito da capital inglesa. Sei quais linhas de metrô e ônibus sofrerão atraso, quais serão as alterações de rota nos feriados e nos períodos de obras, recebo pedido de desculpas pelos trantornos e agradecimentos pela minha cooperação.
A cada vez que recebo um comunicado desses, lembro como é ser tratada como cidadã. E penso: é assim que tinha que ser. Tudo. Tudo na vida. Não sou inimiga da flexibilidade, há modos diversos de se administrar uma cidade, um relacionamento, um trabalho, porém muitos problemas seriam eliminados se optássemos pela maneira consagrada, a que sempre funcionou: transparência e assertividade.
Como é que tem que ser? Se te perguntam, responda. Se te emprestam, devolva. Sem dinheiro, não compre. Se te dão, agradeça. Se te confiaram, cuide. Se te agridem, afaste-se. Se te pagaram, entregue. Se cansou, pare. Se te confidenciaram, silencie. Se te roubaram, acuse. Se colocou no mundo, crie. Se contratou, pague. Se gostou, fique. Se não gostou, recuse. Se errou, desculpe-se. Se acertou, repita. Se tem que fazer, faça. Se prometeu, cumpra. Se vai atrasar, avise. Se te necessitam, ajude. Se você precisa, peça.
É feito um relógio. Tique-taque, no ritmo da eficiência. Porém, as pessoas fogem desse esquema porque acreditam que ficarão engessadas, que serão chamadas de caretas ou que terão uma existência simplista. Que bobagem. Elas apenas adiantarão seu lado, a fim de ganhar tempo para se dedicarem à deliciosa anarquia da vida, aquela que, aí sim, nunca teve tique-taque. Se gamar, invista. Se sofrer, azar. Se der frio na barriga, celebre. Se vacilar, tente de novo. Se parecer longe, vá igual. Se nunca fez, arrisque. Se der medo, vença-o. Se não souber, invente. Se falhar, ria. Se cansou, viaje. Se calor, praia. Se calhar, Londres.

Martha Medeiros - Zero Hora - Junho/15





Fonte image: INTERNET

11/10/2015

PMG S.A.



S.A.




São tantos os "sócios" nesse nosso ousado projeto que a PMG mais parece uma sociedade anônima. E, vez por outra, eles enriquecem o nosso trabalho com contribuições necessárias e muito pertinentes. Estamos falando de textos, imagens ou vídeos, sempre acompanhadas de mensagens carinhosas, objetivando melhorar a rotina de todos. E foi assim que, no dia 30 de setembro, deparamos-nos com o texto abaixo junto com a seguinte mensagem: "Patricia Justa, lembrei de vc e seus projetos, sócia! Um bom texto p/ vc presentear seus clientes!" Conforme sugeriu essa amiga pra lá de especial, segue mais uma valiosa contribuição. Obrigada, Cristina Lepkison! Amamos e compartilhamos... ❤ ❤ ❤  




Mundo Interior



A casa da gente é uma metáfora da nossa vida, é a representação exata e fiel do nosso mundo interior. Li esta frase outro dia e achei perfeito. Poucas coisas traduzem tão bem nosso jeito de ser como nosso jeito de morar. Isso não se aplica, logicamente, aos inquilinos da rua, que têm como teto um viaduto, ainda que eu não duvide que até eles sejam capazes de ter seus códigos secretos de instalação.
No entanto, estamos falando de quem pode ter um endereço digno, seja seu ou de aluguel. Pode ser um daqueles apartamentos amplos, com o pé-direito alto e preço mais alto ainda, ou um quarto-e-sala tão compacto quanto seu salário: na verdade, isso determina apenas seu poder aquisitivo, não revela seu mundo interior, que se manifesta por meio de outros valores.
Da porta da rua pra dentro, pouco importa a quantidade de metros quadrados e, sim, a maneira como você os ocupa. Se é uma casa colorida ou monocromática. Se tem objetos adquiridos com afeto ou se foi tudo escolhido por um decorador profissional. Se há fotos das pessoas que amamos espalhadas por porta-retratos ou se há paredes nuas.
Tudo pode ser revelador: se deixamos a comida estragar na geladeira, se temos a mania de deixar as janelas sempre fechadas, se há muitas coisas por consertar. Isso também é estilo de vida.
Luz direta ou indireta? Tudo combinadinho ou uma esquizofrenia saudável na junção das coisas? Tudo de grife ou tudo de brique?
É um jogo lúdico tentar descobrir o quanto há de granito e o quanto há de madeira na nossa personalidade. Qual o grau de importância das plantas no nosso habitat, que nota daríamos para o quesito vista panorâmica? Quadros tortos nos enervam? Tapetes rotos nos comovem?
Há casas em que tudo o que é aparente está em ordem, mas reina a confusão dentro dos armários. Há casas tão limpas, tão lindas, tão perfeitas que parecem cenários: faz falta um cheiro de comida e um som vindo lá do quarto. Há casas escuras. Há casas feias por fora e bonitas por dentro. Há casas pequenas onde cabem toda a família e amigos, há casas com lareira que se mantêm frias, há casas prontas para receber visitas e impróprias para receber a vida. Há casas com escadas, casas com desníveis, casas divertidamente irregulares.
Pode parecer apenas o lugar onde a gente dorme, come e vê televisão, mas nossa casa é muito mais que isso. É a nossa caverna, o nosso castelo, o esconderijo secreto onde coabitamos com nossos defeitos e virtudes.
 
Martha Medeiros





Fonte imagem: INTERNET

02/08/2015

 OXIGÊNIO E AMOR



"O essencial é invisível aos olhos."
Antoine de Saint-Exupéry





Às vésperas do niver da leonina mais intensa que já conheci, sem ideia nenhuma, abro o notebook em busca de inspiração para o post de hoje. Lembrando, também, da cobrança recente de uma amiga assídua aqui no ARQUITETANDO POR AÍ, procurei pelas crônicas novas da escritora Martha Medeiros. E, para minha surpresa, a primeira da lista de sugestões do google trazia o curioso título: "Casa comigo". Romântica desde sempre, logo interessei-me. Mas, à medida que avançava no texto, só lembrava da leonina acima citada e seu coração TRANSBORDANTE de amor...           




Casa comigo

Os dois namorados estavam dentro do carro, à noite, estacionados em frente ao prédio da excelentíssima, discutindo a relação. Discutindo mesmo, aos berros, brigando. Em meio a algum pra mim chega!, surgiram dois meliantes armados e interromperam aquele bate-boca. Transferiram os namorados para o banco de trás e saíram em disparada com eles: sequestro relâmpago. Rodaram a cidade durante 50 minutos, fizeram saques em caixas eletrônicos, até que os levaram para um lugar ermo, no meio do mato.
Duas coronhadas, uma em cada um, rostos sangrando, mas era pouco: despiram os dois, deixando-os apenas com a roupa de baixo, e os amarraram em troncos de árvores. Não houve agressão sexual, mas não se pode dizer que foi um passeio no bosque. Em plena madrugada, abandonaram o casal imobilizado e seguiram com o carro do rapaz rumo à impunidade garantida.
Restou o silêncio. Assustados, os dois tentaram, tentaram de novo, e conseguiram, finalmente, se desamarrar. Livres, sozinhos, sem saber onde estavam, olharam um para o outro e tiveram um ataque de riso. Ele a abraçou fortemente e só conseguiu dizer duas palavras: "Casa comigo".
Aconteceu mesmo. Quem me contou, olho no olho, foi a protagonista feminina da história. Eu não conseguiria imaginar pedido de casamento mais romântico. Sem vinho, sem luz de velas e sem anel de brilhantes - um pedido movido simplesmente pela emergência da vida, pela busca de uma felicidade genuína, pela supressão da razão em detrimento da emoção verdadeira.
Estavam para morrer, os dois. Foram unidos pelo mesmo pensamento desde que foram surpreendidos por dois estranhos armados: acabou. Não tem mais por que discutir a relação. Não tem mais relação. Não tem mais manhã seguinte. Não tem mais futuro. Acabou. Que perda de tempo. Para que brigar? Para que se estressar com ciúmes, com queixas, com mágoas? Acabou.
E então descobrem que não acabou. Desamarram-se, estão nus por fora e por dentro, despidos de qualquer racionalidade, apenas aliviados com o desfecho da aventura e absolutamente tomados pela potência do que é essencial na vida. O amor.
Casa comigo.
Estão casados há 10 anos. Não sei se plenamente felizes. É provável que os motivos dos ciúmes e das queixas e de tudo aquilo que explodiu naquela discussão dentro do carro antes do sequestro tenha se repetido outras vezes. A realidade impõe os seus caprichos. Obriga a gente a pensar e manter a sanidade. Maldita sanidade.
Mas houve um momento em que eles não pensaram. Só sentiram. Sentiram tudo. Sentiram sem amarras. Sentiram soltos. Sentiram livres. Pura emoção. E a emoção se impôs: casa comigo. Tiveram os piores padrinhos do mundo: a violência e o medo. Mas que beijo deve ter sido dado ali no meio do nada.

Martha Medeiros - Zero Hora - abril/2014
O caso é tão verídico que já esteve em pautas de importantes programas de tv. E, para reforçar o pensamento de Martha, nada melhor que a famosa hashtag, #oamoréosentimentomaisnecessáriodomundo, muito usada pela aniversariante mencionada. Quantos de nós, "despidos de qualquer racionalidade", quando o destino bagunça as nossas organizações, ainda conseguem se lembrar do amor? Difícil saber. Então, fora o perigo, é, exatamente, isso que desejo à minha irmã de alma. Diante da sua outra metade, nada pode ser mais importante que oxigênio e amor, Sis! 



Fonte imegem: INTERNET  


10/05/2015

FELIZ TODO DIA!



#elesmetransformam



Que dizer sobre uma rotina diária com trabalho de organização misturado às demandas de duas adolescentes!? De enlouquecer qualquer um!! E, sempre com a sensação de que o dia deveria ter pelo menos 48 horas, sigo participando de momentos ímpares, muitas vezes, em pleno trânsito. Há poucos dias, tal qual as premiações que elas insistem em acompanhar, resolveram escolher os melhores momentos das suas próprias vidas. Entre concordâncias e discordâncias, tentavam eleger o melhor de tudo: músicas, filmes, livros, comidas, presentes. Pensem numa lista grande...
Acompanhando a diversão delas até onde os meus devaneios permitiram, lembrei da proximidade do Dia das Mães e resolvi eleger a melhor mãe que já conheci. Sem grandes dificuldades, logo entendi que precisava viver 47 anos antes de pensar em realizar tal competição. E, lá no topo do pódio, às vésperas de ser vovó, está ela que, como mãe, não se cansa de colecionar alegrias. Eis que, Martha Medeiros e suas ponderações certeiras vêm a minha mente antes da chegada ao destino. Unindo as pontas, o post de hoje é uma homenagem à Marília Adan, uma mãe triplamente vitoriosa!! 



O mundo não é maternal


É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é um erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.
O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se virarmos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso.
O mundo quer que a gente fique horas no telefone, torrando dinheiro. Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividados por vinte anos. O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito. Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, com os nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.
O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, sarados e vitoriosos para enfeitar ele próprio, como se fôssemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa.
O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não pára para nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. Para o mundo, quem menos corre, voa. Quem não se comunica se trumbica. Quem com ferro fere, com fero será ferido. O mundo não quer saber de indivíduos, e sim de slogans e estatísticas.
Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto que o mundo propriamente dito exige eficiência máxima, seleciona os mais bem-dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça.

Martha Medeiros - Non Stop - maio/2000 





Fonte imagens: INTERNET

15/02/2015

AINDA É CARNAVAL?



Organizando dvds com custo quase zero!





Dia desses, uma amiga me perguntou a razão de, sendo fã do trabalho de Martha Medeiros, não publicar seus textos com mais frequência. Muito simples! Tenho medo de ser processada. Entre admirar o seu trabalho e usá-lo para promover o meu próprio, há uma linha muito tênue e perigosa. É preciso ter, não apenas cuidado mas, acima de tudo, muito respeito.
Imaginem que, ainda no tema dicas de filmes que nos ajudem a pular o Carnaval, procurando na net uma sinopse de ANTES DE PARTIR, com Jack Nicholson e Morgam Freeman, eis que Martha surge na minha tela. Coincidência? Talvez. Mas, diante de tantas opiniões em comum, que fazer com a frase "uma vida sem amigos é uma vida vazia"? Compartilhar!





ANTES DE PARTIR


Um filme cujos protagonistas são Jack Nicholson e Morgan Freeman, com diálogos bem construídos e um humor inteligente (mesmo tratando de um assunto difícil como a finitude da vida) já entra em cartaz com vantagem, mesmo que o roteiro não seja lá muito surpreendente.
Antes de Partir não é mesmo surpreendente, mas isso também pode ser uma coisa boa. Ficamos sempre correndo atrás de fórmulas novas quando deveríamos nos dedicar mais a reforçar certas verdades. E a verdade do filme, se pudesse ser resumida numa frase, seria: aproveite o tempo que lhe resta. Nada que você já não tenha escutado mil vezes.
Nicholson e Freeman interpretam dois sessentões que descobrem estar com uma doença terminal. Os prognósticos apontam seis meses de vida para cada um, no máximo um ano. E agora? Esperar a extrema-unção numa cama de hospital ou buscar a extrema excitação?
Sem piscar, eles aventuram-se pelo mundo praticando esportes radicais, conhecendo lugares exóticos, desfrutando todos os prazeres de uma vida bem vivida - claro que um deles é milionário e banca tudo, detalhe que nos falta na hora de pensar em fazer o mesmo. Você não pensa em fazer o mesmo?
Você, eu e mais 6 bilhões de homens e mulheres também estamos com a sentença decretada, só não sabemos o dia e a hora. Está certo que é morbidez pensar sobre isso quando se é muito moço, mas alcançando uma certa maturidade, já dá pra parar de se iludir com a vida eterna, amém. Com dinheiro ou sem dinheiro, faça valer a sua passagem por aqui. Não sei se você percebeu, mas viver é nossa única opção real. Antes de nascermos, era o nada. Depois, virá mais uma infinidade de nada. Essa merrequinha de tempo entre dois nadas é um presentaço. Não seja maluco de desperdiçar.
Ok, quantos de nós podem sair amanhã para um safári na África, para um tour pelas pirâmides do Egito, para um jantar num restaurante cinco estrelas na França? Ou teria coragem de saltar de pára-quedas e pisar fundo num carro de corrida numa pista em Indianápolis? Se não temos grana nem dublês, então que a gente se divirta com outro tipo de emoção, que o filme, aliás, também recomenda.
Reconheçamos o básico: uma vida sem amigos é uma vida vazia. O mundo é muito maior que a sala e a cozinha do nosso apartamento. A arte proporciona um sem-número de viagens essenciais para o espírito. Amar é disparado a coisa mais importante que existe.
Que mais? Desmediocrize sua vida. Procure seus "desaparecidos", resgate seus afetos. Aprenda com quem tiver algo a ensinar, e ensine algo àqueles que estão engessados em suas teses de certo e errado. Troque experiências, troque risadas, troque carícias. Não é preciso chegar num momento limite para se dar conta disso. O enfrentamento das pequenas mortes que nos acontecem em vida já é o empurrão necessário. Morremos um pouco todos os dias, e todos os dias devemos procurar um final bonito antes de partir.


Martha Medeiros - Doidas e Santas - março/2008
 
 
 

 
Caso suas propostas para os dias de carnaval continuem sendo aproveitar o sessego, sugiro que não percam ANTES DE PARTIR. Um filme sensacional que, certamente, os fará refletir e procurar reforçar "certas verdades". No final das contas, seja física ou emocional, tudo faz parte de um mesmo tema: organização. Inspirem-se e organizem as suas prioridades...
 
 
 
 
 
Fonte Imagens: INTERNET 

23/11/2014

A TURMA DA LEVEZA



Por uma rotina mais leve...





Odeio mentiras com todas as minhas forças. Por isso, na tentativa de explicar a origem do post de hoje, preciso confessar-lhes que cheguei a pensar em usar algumas delas por aqui. Envergonhada, assumo que teria sido uma falta pra lá de imperdoável. Porém, diante de uma semana de coincidências, reflexões e muitas revelações, no primeiro momento, pareceu-me que a "verdade verdadeira" confundia-se com ficção. E foi assim que, faltando apenas doze horas para essa publicação, sem tempo, nem cabeça para garimpar imagens interessantes na internet, lembrei que há muito não recorria à sensibilidade da escritora Martha Medeiros. Sedenta por qualquer tipo de inspiração, decidi abrir o livro A GRAÇA DA COISA ao acaso. Plano executado, acreditam que, para minha surpresa, lá na página 149, deparei-me com a crônica MINHA TURMA!? Diante de um texto simples, leve e objetivo, acabei vislumbrando respostas para alguns dos meus questionamentos recentes. Querem saber o mais importante disso tudo!? Desde o primeiro parágrafo, lembrei de Marília Adan: uma parceira, uma irmã de coração, um presente que a vida me devolveu em 2014. Com ela, pude constatar que coincidências, realmente, não existem. Uma honra tê-la na minha turma, Sis!! Precisa dizer mais!? Lov u...     





MINHA TURMA


Ela é uma amiga recente. Tem três filhos, sendo que um deles possui uma síndrome rara. É uma criança especial, como se diz. Acabei de ouvi-la palestrar a respeito de como é o envolvimento de uma mãe com um ser que necessita de tanta atenção. Eu estava preparada para ouvir um chororô, e não a acusaria, ela teria todo o direito se. Mas o “se” não veio. O que vi foi uma mulher comovente e leve ao mesmo tempo, recorrendo ao humor para segurar a onda e para não se desconectar de si mesma. Ela deu uma choradinha, sim, mas de pura emoção e gratidão por passar por essa experiência que dá a ela e a esse filho uma cumplicidade também fora do comum. Quando ela terminou de falar, pensei: “Essa é da minha turma”. E silenciosamente a inseri no rol dos meus afetos verdadeiros.
Estranhei ter sido essa a expressão que me ocorreu, “minha turma”, e só então percebi que, durante a vida, a gente conhece um mundaréu de pessoas, estabelece variadas trocas de impressões, passeia por outras tribos e tal. São homens e mulheres que chegam bem perto do nosso epicentro, nem sempre por escolha, mas porque são parentes de alguém, conhecidos de não sei quem, e que acabam sendo agregados à nossa agenda do celular. Até que o tempo vai mostrando uma dissimulação aqui, uma maldade ali, uma energia pesada, e você se dá conta de que alguns não são da sua turma.
Da série “Coisas que a gente aprende com o passar dos anos”: abra-se para o novo, mas na hora da intimidade, do papo reto, da confiança, procure sua turma. É fácil reconhecer os integrantes dessa comunidade: são aqueles que falam a sua língua, enxergam o que você vê, entendem o que você nem verbalizou. São aqueles que acham graça das mesmas coisas, que saltam juntos para a transcendência, que possuem o mesmo repertório. São aqueles que não necessitam de legendas, que estão na mesma sintonia, e cujo histórico bate com o seu. Sua turma é sua ressonância, sua clonagem, é você acrescida e valorizada. Sua turma não exige nota de rodapé nem resposta na última página. Sua turma equaliza, não é fator de desgaste. Com ela você dança no mesmo compasso, desliza, cresce, se expande. Sua turma é sua outra família, aquela, escolhida.
Não tenho mais paciência com o que me exige atuação, com quem me obriga a usar palavras em excesso para ser compreendida. Não tenho mais energia para o rapapé, para o rococó, para o servilismo cortês, para o mise-en-scène social. Não tenho motivo para ser quem não sou, para adaptações de última hora, para adequações tiradas da manga. Não quero mais frequentar roda de estranhos cujas piadas não vejo a mínima graça. Não quero mais ser apresentada, muito prazer, e daí por diante ter que dissecar minha árvore genealógica, me explicar em nome dos meus tataravôs, defender posições que me farão passar por boa moça. Não quero mais ser uma convidada surpresa.
Se você mandar eu procurar minha turma, acredite, tomarei como carinho.


Martha Medeiros - A Graça da Coisa - janeiro/2013





Acreditem ou não, foi assim que MINHA TURMA deu sentido à uma semana bastante esquisita. Querem um conselho!? Diante de "verdades verdadeiras", por uma vida mais leve, elejam suas prioridades e enfrentem o que for necessário com coragem. Em consequência da primeira, muitas e muitas ORGANIZAÇÕES ainda virão. Esperando o que!? Mãos à obra!!
 
 
 

 
Fonte imagens - INTERNET

09/03/2014

ORGANIZANDO PARCERIAS



"Parceiria é uma relação bilateral."
Martha Medeiros




Nunca foi segredo a minha admiração pela forma simples e direta com que a escritora Martha Medeiros trata assuntos do cotidiano. Também não foi à toa que deixei um pedacinho de papel marcando a crônica Sustento Feminino, após leitura recente do seu último livro - A GRAÇA DA COISA. Num momento oportuno, o plano era compartilhar com todos, aqui no ARQUITETANDO POR AÍ. E eis que chega o 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Desejo que, assim como ela, indignem-se com as informações e não passem omissos pela "situação". Parcerias organizadas são de fundamental importância para a existência e prosperidade de qualquer relação emocionalmente saudável. ABAIXO O RETROCESSO, garotas!!




SUSTENTO FEMININO


Participando de um seminário sobre comportamento, onde foi dito que as mulheres estão de tal forma cansadas de suas múltiplas tarefas e do esforço para manter a independência que começam a ratear: andam sonhando de novo com um provedor, um homem que as sustente financeiramente. Não acreditei. Outro dia discuti com uma amiga porque duvidei quando ela disse estar percebendo a mesma coisa, que as mulheres estão selecionando seus parceiros pelo poder aquisitivo - não só as maduras e pragmáticas, mas também as adolescentes, que ainda deveriam cultivar algum romantismo.
Então é verdade? Pois me parece um retrocesso. A independência nos torna disponíveis para viver a vida da forma que quisermos, sem ter que “negociar” nossa felicidade com ninguém. São poucos os casos em que se pode ser independente sem ter a própria fonte de renda (que não precisa obrigatoriamente ser igual ou superior a do marido). Não é nenhum pecado o homem pagar uma viagem, dar presentes, segurar as pontas em despesas maiores, caso ele ganhe mais – é distribuição de renda. Mas se é ela que ganha mais, a madame também pode assumir o posto de provedora sênior, até que as coisas se equalizem. Parceria é uma relação bilateral. É importante que ambos sejam autossuficientes para que não haja distorções sobre o que significa “amor” com aspas e amor sem aspas.
As mulheres precisam muito dos homens, mas por razões mais profundas. Estamos realmente com sobrecarga de funções – pressão auto-imposta, diga-se –, o que faz com que percamos nossa conexão com a feminilidade: para ser mulher não basta usar saia e pintar as unhas, essa é a parte fácil. A questão é ancestral: temos, sim, necessidade de um olhar protetor e amoroso, de um parceiro que nos deseje por nossa delicadeza, nossa sensualidade, nosso mistério. O homem nos confirma como mulher, e nós a eles. Essa é a verdadeira troca, que está difícil de acontecer porque viramos generais da banda sem direito a vacilações, e eles, assustados com essa senhora que fala grosso, acabam por se infantilizar ainda mais.
Podemos ser independentes e ternas, independentes e carinhosas, independentes e fêmeas – não há contradição. Estamos mais solitárias porque queremos ter a última palavra em tudo, ser nota 10 em tudo, a superpoderosa que não delega, não ouve ninguém e que está ficando biruta sem perceber.
Garotas, não desistam da sua independência. Façam o que estiver ao seu alcance, seja através do trabalho ou do estudo, em busca de realização e amor-próprio. Escolher parceiros pelo saldo bancário é triste e antigo, os tempos são outros. É plausível que se procure alguém com o mesmo nível intelectual e social, com um projeto de vida parecido e com potencial de crescimento – mas para crescerem juntos, não para garantir um tutor.
A solidão, como contingência da vida, não é trágica, podemos dar conta de nós mesmas. Mas, ainda que eu pareça obsoleta, ainda acredito que se sentir amada é que nos sustenta de fato.

 
Martha Medeiros - A Graça da Coisa - outubro/2011
 
 

 
 
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22/12/2013

NOS BASTIDORES DO NATAL...



Guerreira dos bastidores




Mamãe Noel

 
Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem. Dá para acreditar que um homem vai se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família, ele que nem compra as próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco pesadíssimo, ele que reclama até para colocar o lixo no corredor? Que toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que abandou o marron depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele não faria isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.
Quem é a melhor amiga do Molocoton, quem sabe a diferença entre Mulan e Esmeralda, quem conhece o nome de todas as Chiquititas, quem merecia ser sócia-majoritária da Superfestas? Não é o bom velhinho.
Quem coloca guirlandas nas portas, velas perfumadas nos castiçais, arranjos e flores vermelhas pela casa? Quem monta a árvore de Natal, harmonizando bolas, anjos, fitas e luzinhas, e deixando tudo combinando com o sofá e os tapetes? E quem desmonta essa parafernália toda no dia 6 de janeiro?
Papai Noel ainda está de ressaca no Dia de Reis.
Quem enche a geladeira de cerveja, coca-cola e champanhe? Quem providencia o peru, o arroz à grega, o sarrabulho, as castanhas, o musse de atum, as lentilhas, os guardanapinhos decorados, os cálices lavadinhos, a toalha bem passada e ainda lembra de deixar algum disco meloso à mão?
Quem lembra de dar uma lembrancinha para o zelador, o porteiro, o carteiro, o entregador de jornal, o cabeleireiro, a diarista? Quem compra o presente do amigo-secreto do escritório do Papai Noel? Deveria ser o próprio, tão magnânimo, mas ele não tem tempo para essas coisas. Anda muito requisitado como garoto-propaganda.
Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu trono no shopping, quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços, carrega sacolas, confere listas, lembra da sogra, do sogro, dos cunhados, dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o carro no sol e chega em casa sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?
Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em quem todos deveriam acreditar mais.
 
 
Martha Medeiros - Trem Bala - dezembro/1998

 


Diante de um mundo tão exigente com as mulheres, que me perdoem os amigos, mas amei o texto de Martha (atualíssimo, apesar de datado do século passado!). Assim, apresento-o aqui como forma de reconhecimento às muitas guerreiras de bastidores que fazem parte da minha vida. Tenham um Feliz Natal, amigas especiais!! Muito orgulho de vocês...  
 


 
Fonte imagem: INTERNET

09/06/2013

SIMPLICIDADE


"Ser simples é facilitar a vida dos outros e a própria."
Martha Medeiros




Morro de inveja quando testemunho o relato de um sonho com início meio e fim. Pior ainda, quando deles se consegue tirar mensagens e ensinamentos. Os meus sonhos costumam ser ligados ao cotidiano, preocupações, banalidades e nada mais. Mesmo quando são bons, apresentam-se completamente desordenados. Compará-los com um filme?? Impossível!! Mas, foi por conta de um deles, que misturava vestibular de afilhadas, finanças pessoais e trânsito caótico, que surgiu a ideia para o post de hoje. Se são reflexo do que somos e vivemos, certamente, estamos precisando simplificar. E aí!? Só pedindo reforços... 




SIMPLICIDADE


É difícil ser simples. Frase surrada, mas perfeita. Diz o que tem que dizer. Comunica. Vai ao ponto.
Somos perdulários nas atitudes e nas descrições. Gastamos saliva à toa, exageramos na dose, perdemos um tempo danado dourando a pílula, sem reparar que poderíamos fazer tudo o que fazemos de maneira mais rápida e funcional.
Para isso é preciso ter noções de economia. Porque simplicidade é reduzir excessos. É feijão com arroz, preto no branco. Nada de purpurina e orquestra, recheios e encenações. Não precisamos de muita produção para viver. Basta saber dizer sim e não, e dissecar o que for mais complicado. Parece complicado? Mas é tão simples...
Conversando outro dia com alunos de um curso pré-vestibular, me perguntaram como escrever a redação, prova das mais temidas para os pretendentes a uma vaga na universidade. Simples: sem enrrolar. Dizer o que se passa na cabeça como se estivesse numa mesa de bar, porém zelando pelo bom uso do xis, do zê e da cedilha. Não abusando de adjetivos: "Este grande Brasil dilacerado passa por um terrível momento catastrófico e o povo humilde e amargurado sofre inenarráveis mazelas brutais." Não misturando os assuntos: "Se tivéssemos menos carros nas ruas poderíamos diminuir a poluição e ouviríamos melhor o silêncio que é sagrado principalmente depois da hora do almoço, quando tiramos aquela soneca porque sofremos de insônia, um dos grandes males da humanidade." Concentre-se e resuma-se. Escreva um grande rascunho e, depois strip-tease nele: deixe que fique só o necessário para seduzir o leitor.
Ser simples é facilitar a vida dos outros e a própria. Vale para se vestir, para declarar amor, para pedir informação. "Moça, eu saí de casa atrasado e esqueci de olhar o mapa e agora preciso encontrar a rua Simões Pires pois é lá que tenho aula de piano às quatro horas mas acho que por essa parada não passa o ônibus da rua 31, não é?" Zzzzzzzzzz, tarde demais a moça pegou no sono.
Concisão é uma questão de hábito e autoconfiança. As pessoas exageram porque acham que não estão sendo notadas. Usam colar, pulseira, brinco, piercing, bracelete e ainda fazem uma tatuagem desde o pescoço até o umbigo: impossível enxergar alguém por trás de tanto adereço. Simplicidade é quase nudez, é quase silêncio, é quando chagamos bem próximo da verdade. Simplicidade é a busca do absoluto. É escapar de armadilhas e descongestionar o pensamento. O trajeto mais curto para a felicidade.
 
 
Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - junho/2001
 
 
 
 
Já que simplificar é um trabalho de base e envolve vários setores, fica aqui a contribuição do ARQUITETANDO POR AÍ no quesito organização. São imagens garimpadas da internet que, visando reaproveitamento e economia, funcionarão como exemplo e estímulo para que se inicie essa mudança tão necessária. Vamos lá!! Mãos à obra!! Agora, é com vocês...
 
 
 

Cestas/tábuas para corte como gavetas

 
 
Caixa plástica organizadora c/ tampa
 
 
 
Cabides para roupa em madeira

 
 
Armário de pratos s/ porta
 
 

Balde c/ corte posterior
 
 
 
Vasos cerâmicos p/ plantas
 
 
 
Banco c/ aproveitamento do assento

 
 
 
 
Fonte Imagens - INTERNET

27/01/2013

AÇÃO

 
 
"A fórmula da minha felicidade:
um sim, um não, uma linha reta, um objetivo."

FRIEDRICH NIETZSCHE

 

 

O PENSAMENTO NAS PERNAS

 
 
Sempre acreditei que, se eu quisesse transformar alguma coisa, teria antes que passar por uma racionalização profunda e, posteriormente, por uma compreensão dos fatos. Ou seja, primeiro, pensar bastante para, então, compreender.
Cumprindo essas duas etapas, atingiria a serenidade buscada, fosse nas questões amorosas, familiares, profissionais, existenciais. A compreensão, como num passe de mágica, soltaria os fios enovelados e só então eu poderia me modificar.
Acontece que pensar demais cansa. Afirmo com a experiência de uma maratonista cerebral: eu vivia sempre no módulo on, com o cérebro ligado na tomada, descansando só quando dormia, e ainda assim com um olho fechado e outro aberto. Se pensar conduzia à compreensão, bora pensar, para poder entender. Sem entender, acreditava que meu barco ficaria à deriva, noites e dias sob as intempéries, sem atracar em lugar algum.
Tanta coisa serve de cais: um casamento, uma promoção, uma cura, um projeto, uma bolada, um filho. Estamos sempre indo ao encontro de alguma coisa sensacional que ainda não sabemos o que é nem se iremos encontrar mesmo.
Pois, diante desse imenso ponto de interrogação que é o futuro de todos nós, reformulei minhas crenças: estou me dando o direito de não pensar tanto, de me cobrar menos ainda, e deixar para compreender depois. Desisti de atracar o barco e resolvi aproveitar a paisagem.
Primeiro mude, a compreensão virá depois. É mais ou menos o que a filosofia de Nietzsche sugere. Ninguém muda apenas através do pensamento. A transformação meramente intelectual é uma presunção, não existe de fato. É preciso colocar o pensamento nas pernas e agir. O corpo é que nos leva para uma nova vida, e não a razão, diz o filósofo num texto chamado “A favor da crítica”.
Recentemente os integrantes do programa Saia Justa discutiram o que é drama e o que é tragédia, e chegaram à conclusão de que o drama te encarcera, enquanto a tragédia, por mais dolorosa que seja, te coloca em movimento: você sai dela diferente. Do drama você não sai: você fica remoendo, remoendo, remoendo. Excesso de racionalização engessa o sentimento e não te leva pra fora, pra frente.
De Nietzsche a Saia Justa é um salto e tanto, reconheço, mas toda filosofia é bem-vinda, seja acadêmica ou de mesa de bar, de programa de tevê, de coluna de jornal. Estamos aqui para aquilo que os intelectuais rejeitam que se fale em público (mas falo baixinho: ser feliz). E a felicidade não é uma ilha paradisíaca onde nosso barco um dia atracará. A felicidade não é terra firme: ela é o próprio mar.
Passamos uma vida perseguindo a felicidade, sem reparar que ela está justamente na perseguição. O pensamento nas pernas. O movimento. A ação. Não há muito a compreender além disso.
 
 
 
ZERO HORA - 02/2012 - MARTHA MEDEIROS
 
 
 
 
Há exatos sete dias, recebi o texto acima, de uma amiga muito querida, "desaparecida" desde o final de 2012. Mas, por favor, nada de pânico!! Como todos nós, estava apenas envolvida nas suas demandas pessoais. Ainda assim, conseguiu tempo para surpreender-me com um carinhoso e-mail, trazendo a seguinte declaração: "Este texto logo me fez pensar em você!" Tive que parar e aproveitar o momento. Afinal, estávamos a escritora, ela e eu, ligadas pela rede, dividindo a mesma crença: AÇÃO é tudo!! Simples, direta, eficiente, Martha Medeiros atinge o centro do alvo.  
Só não entende, quem não quer, não é mesmo, Simone Nogueira!? 
 


 

FONTE IMAGEM - internet